Um pouco sobre nossa história...

A história da Cabula se inicia em inúmeras insurreições de guerreiros congo e angolas, que resultaram em fugas, lutas armadas e na formação do Quilombo de Orobó, localizado no município de Itaberaba; neste local os negros bantus realizavam o toque musical chamado cabula, que antecedia as invasões a fazendas e comércios para libertar os escravos e depois celebravam suas incursões com rituais de origem bantus, ao som do mesmo toque guerreiro.

O Quilombo de Orobó foi um dos mais proeminentes e temido da Bahia, em sua época. Com a sua extinção em 1796 pelas mãos do Capitão-mor de Entrada e Assaltos, Severino da Silva Pereira. Nessa disputa houve mortos e foram aprisionados treze escravos, sendo que uma boa parte conseguiu escapar reunindo-se noutro quilombo conhecido pelo nome de Tupim, que também foi destruído em 29 de abril de 1798. Uma parcela de refugiados migrou para o centro histórico de Salvador, onde hoje é o bairro da Cabula, local de marcada influência africana e sede de importantes locais de culto afro-brasileiro. 

Uma outra parte dos quilombolas fugiram e se refugiaram no estado do Espírito Santo, para se abrigar das perseguições empreendidas contra eles. No território capixaba, os refugiados influenciaram com suas histórias de resistência, um jovem escravo insurgente de nome Benedito Caravelas, que aos 21 anos reuniu vários negros rebeldes e revolucionários como ele e funda uma fraternidade religiosa de negros como instrumento de libertação dos escravos, que recebe o nome do toque revolucionário usado no Quilombo de Orobó – Cabula.

Por meio dessa fraternidade os negros se organizaram, criando lideranças, organizações militares, sociais, econômicas e religiosas. Esta sociedade secreta, agrega ainda, alguns negros sobreviventes da Revolta dos Malês de 1835, que também buscaram refúgio sob a proteção de Benedito Caravelas, e fortemente influenciaram a Cabula nas questões de estudos sobre a fé, nos rituais de Lembá, na vestimenta e nos conhecimentos militares. Benedito Caravelas realiza diversas viagens ao nordeste e outros estados da região sudeste; lhe garantindo o apelido de Benedito Meia-Légua. Essas viagens resultam na expansão dos adeptos e da rede de influência da Cabula, que extrapola os limites do estado do Espírito Santo e atinge os negros dos estados da Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

Além das práticas de fortalecimento espiritual, a Cabula produzia e comercializava diversos produtos agrícolas e manufatureiros, que geravam recurso financeiro utilizado principalmente para financiar os estudos das crianças negras em colégios de padres e universidades, permitindo-lhes ascender socialmente, para que como médicos, advogados e engenheiros fossem uma voz a mais pela abolição. Com essa ascensão social provocada pela Academia, os negros cabulistas, agora elitizados, passam a ser convidados para ingressar na Maçonaria, o que permitiu uma ampliação em sua rede de influência e agregou um conjunto de saberes (ocultismo, alquimia, kaballah, hermetismo, gnose) estudados pela maçonaria e que passam a ser assimilados pela Cabula, que adota em seus rituais palavras de passe, toques, gestos e outros recursos com que se reconheciam em público, que refina ainda mais sua estrutura e a transmissão de seus ensinamentos por meio de uma iniciação mais elaborada.

Esse encontro com a Maçonaria contribuiu também com o sincretismo entre os objetivos da Cabula e da Maçonaria no que tange: ajudar os negros no fortalecimento de seu caráter, ampliar sua bagagem moral e espiritual, aumentar seus horizontes culturais.

Com a crescente expansão da Cabula, essa passa a acolher, além de negros também brancos pobres, que eram tratados iguais aos negros escravizados, chegando a algo entorno de 8.000 adeptos nos sete estados em que atuava. A elite brasileira começa a se sentir ameaçada por uma religião de negros fortalecidos intelectualmente, seguros emocionalmente, financeiramente independentes e de apoio mútuo. Todos temiam a Cabula, por ser uma religião eminentemente de caráter africano, indígena, malê e maçônico; nesse sentido, a Cabula consistia uma ameaça ao poder dominante, pois se temia que pudesse ser instalado na região do Espírito Santo, um outro Canudos.

Por meio de uma campanha discriminatória de marginalização da Cabula, realizada pela Igreja e pelo Governo que aproveitando a falta de conhecimento referente as práticas da sociedade secreta para disseminarem a ideia de que a Cabula estava relacionada a cultos de entidades demoníacas, baixo espiritismo, charlatanismo, sacrifícios humanos e criminosas. Com isso, os próprios negros e brancos pobres que não faziam parte da Cabula passaram a temer seus praticantes denunciando-os para a polícia.

Fortaleceu-se a perseguição ao seu líder político e espiritual, Benedito Méia-Légua que foi assassinado em 1900, aos 95 anos, doente e mancando de uma perna, que só foi morto por ter sido denunciado por um caçador não cabulista, que informou as tropas seu esconderijo, sendo este o oco de uma árvore, onde sempre dormia. Aqueles que o perseguiam montaram tocaia em volta do tronco e ali ficaram até a noite, esperando que ele se recolhesse para dormir. Logo que o viram entrar, taparam o tronco e lhe atearam fogo, que ardeu durante dois dias e duas noites. Com a morte de Benedito Meia-Légua, a Cabula sofreu um grande abalo em suas estruturas.

Sentindo-se ameaçados muitos negros e brancos pobres frequentadores não adeptos se sentiram obrigados a aderirem ao catolicismo para não serem presos e julgados ou sofrerem algum tipo de penalidade. Muitos negros são presos, dentre eles adeptos e não adeptos da Cabula; e são interrogados sob tortura, com o intuito de revelarem o conjunto de saberes herméticos estudados e praticados na Cabula. Os Camanás, como são denominados os iniciados, haviam prestado juramento de guardar segredo absoluto sobre a Cabula; e mesmo sob tortura preservaram seu juramento e não revelaram seus fundamentos.

Diante de todo esse movimento de perseguição e supressão, os dirigentes espirituais da Cabula determinaram o início de um processo de transformação significativa, de uma Cabula revolucionária até o final do século XIX, para uma Cabula religiosa e ainda mais hermética, a partir do começo do século XX.

Fontes:

Portal da Prefeitura Municipal de Itaberaba

O Negro Brasileiro, Arthur Ramos, 1934

Carta Pastoral do Bispo João Batista Correia Néri

Registro Oral dos Anciões da Familia Religiosa

 

(21) 97357-9745

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